domingo, 5 de julho de 2015


Primeira Experimentação

Em frente a catedral, antes de começar a dançar criei um ritual de primeiro começar a me alongar, porque sinto dificuldade em me concentrar. Comecei me alongando e naturalmente dando espaço a minha dança.
Percebendo que só o fato de me alongar, já causava um estranhamento nas pessoas que passavam.
De inicio eu posso relatar que passei pela sensação de me sentir insegura e reprimida, mas não por alguém que estava me reprimindo, mas um sentimento que vinha de mim mesma.
Sinto que se eu quero quebrar os paradigmas sociais de gestualidade e liberdade, eu devo antes de qualquer coisa começar isso em mim, porque como uma pessoa inserida nessa realidade também sou influenciada por ela, e a reproduzo o tempo todo. Como é difícil eu me libertar para fazer as coisas que eu quero, sem me preocupar com os outros.


Estes dois pontos que coloquei inicialmente se repetiram ao longo das outras danças.
O ponto principal da dança era quando eu conseguia de libertar de tudo isso e me divertia, como em uma brincadeira. Que eu danço e brinco o lugar. Tocava o chão, sentia o áspero do concreto o duro e totalmente impermeável dos degraus, quais eram as qualidade que eu poderia explorar naquele espaço. Em alguns momentos a criança que existe em mim surgia para experimentar aquele espaço, em outras ela se sentia reprimida, seguindo nesse duplo jogo. Entre liberdade e repressão.

Minha experimentação buscava a fragmentação, o movimento fluido, o liquido do corpo.
Olhava em volta em alguns momentos e constatava a diferença da minha arquitetura, que contrasta fortemente com aquela que estava ao meu redor. Talvez eu pudesse buscar exatamente o contraste, e colocar ali, na urbe, tudo que vai contra esse estado rígido, esse corpo que não se adere a essa atmosfera.
Criando uma qualidade de movimento que se coloca contra/inversa a aquela que o espaço me proporciona. Um movimento mais liquido. O liquido no concreto.
De qualquer forma, qualquer movimentação que foge desta gestualidade enrijecida, já se posiciona contra ao fluxo cotidiano.

Já pensando na recepção, eu era pouco percebida, não cheguei a gerar nenhum impacto ou qualquer interrupção aparente, tudo permaneceu o mesmo. Não interrompia o fluxo, algumas pessoas nem me viam, outras olhavam de forma breve. Um grupo de pessoas que estavam atrás de mim sentiram minha falta alguns minutos depois que eu sai, se perguntaram - Você viu pra onde foi a moça? Não vi ela sair.
Houve uma moça que veio parando e me observando e ficou parada na minha frente apenas observando a minha dança, atenciosamente. Uma outra moça antes de atravessar a faixa de pedestres parou e olhou um pouco.

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