segunda-feira, 6 de julho de 2015


Danças do instante 


Quanto que dura uma dança aos olhos de quem passa por ela?
A dança se torna algo poético e efêmero em meio da multidão, em que instante termina e em que instante começa as danças de instantes?
Sua participação no coletivo é tão efêmera quanto é a si própria. Ela (a dança) tem um apelo por si só a liberdade. 
Diria até que o corpo naquele momento se torna um manifesto poético a liberdade. 
Poderia ser dialogado, o que é liberdade de fato, se ela existe, e se existe onde a encontramos? 
Em quais pequenos momentos encontramos a nossa liberdade no cotidiano, e quando encontramos somos livres para exerce-la?
“O uso do corpo com liberdade é de fato um sinal de caráter revolucionário”.

 Será que apenas uma ação agressiva ou feita em um grande número de pessoas, ou uma ação espetacularizada vai tirar as pessoas deste estado de coma profundo.
Andre Lepecki menciona em seu texto coreopolítica e coreopolicia, que a coreopolicia vem para policiar a coreografia do urbano, que o espaço urbano não é um espaço que também é de circulação, mas apenas de circulação.
Menciona também que a dança é um ato político por si só, não necessita estar agregada de algum discurso para ser político, e apesar da minha ação estar carregada de um discurso político, a minha dança se perpetua no urbano por si só.

 Querendo iniciar uma discussão ainda mais subjetiva e em relação do comportamento do sujeito na urbe, nos espaços de liberdade, se há espaços de liberdade do individuo. Liberdade de transitar, de permanecer, de gestualidade.
E entrando nessa mesma relação de coreopolícia. Quem além da policia irá “policiar” suas ações dentro do coletivo. Quando a polícia não se está presente quem faz o papel dela? De que forma exerce esse policiar? Cada um policia a si próprio(a).

 Eu apenas danço seguindo a minha própria coreografia, das minhas experiências, do meu contexto social intrínseca no meu gestual e a coreografia que vem do chão, aquela que o próprio espaço me propõe.
Durante a dança eu observo a cidade de um ponto de vista totalmente diferente. As vezes tiro inspiração para minha dança em um novo olhar que surge perante a cidade, em apenas olhar um ponto da cidade de uma forma que nunca tinha observado antes, e esse novo olhar/instante é fomento para minha dança, como um coreografia que vem do chão (do lugar) e traz um outro contexto ao meu movimento.

Eu posso pensar qual a relação que eu causo ao outro, se há alguma interrupção nesse ritual engessado de passagem.
Eu diria que a interrupção é quase nenhuma, apenas alguns momentos muito breves, são poucos os segundos que alguém finca os pés no chão e interrompe esse fluxo de passagem. E este momento é extremamente valioso. Porque ele é raro, é breve, e depois a pessoa retorna ao fluxo novamente, pela razão de que seus compromissos pedem que retorne, ou também porque a própria urbe impõe. 
A urbe não se carateriza como um lugar de estar e sim de passagem.
A recepção da dança está no mesmo parâmetro com a percepção cotidiana do sujeito na urbe.
O sujeito com sua subjetividade também não existe na urbe.
As pessoas não se percebem, elas enxergam umas as outras em frações de três segundos.
Aí que se da a reflexão da minha dança, de que não diferente a qualquer outro sujeito na urbe, a dança é “percebida” em um momento extremamente excepcional. É enxergada por alguns momentos por uma fração de três segundos, e em outros momentos mais duradouros. E “percebida” mesma, somente nestes pequenos momentos excepcionais. 

 Será que dentro dessa ideia de recepção dentro do comportamento habitual das pessoas também está condicionado o não olhar.
Fazendo a ação num espaço que era um encontro entre duas escadas as pessoas eram obrigadas a olharem para mim, porque eu estava em meio a sua passagem. Era um ritmo em que hora as pessoas se aproximavam se mim, e hora se distanciavam, e num desses momentos passou um homem por mim como se nada estivesse acontecendo, não olhou, e quando ele se afastou ele virou de costas parou e olhou para mim. Porque ele foi olhar somante quando já estava distante, seria o olhar próximo invasivo, no sentido de ele se sentir intimidado em olhar?
O não olhar não incomoda, aí eu entro no mesmo diálogo entre o comportamento das pessoas umas com as outras no cotidiano.
As pessoas não se olham umas as outras nos olhos, porque o olhar é muito intrusivo e revelador. 

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